Por Luan Cezário.
O “Coletivo Feminista: discussões sobre questões de gênero” surgiu em 2019 como um Projeto de Apoio do Colégio Técnico da UFRRJ, a partir da iniciativa de duas estudantes que procuraram a professora Beatrice Limoeiro com o desejo de criar um espaço de aprendizagem e debate sobre a temática de gênero.
Em seus primeiros anos de atuação, o projeto teve como objetivos: evidenciar e problematizar elementos sexistas e machistas presentes no cotidiano; promover a troca de experiências; discutir a importância do feminismo na superação de padrões culturais discriminatórios; relacionar as desigualdades de gênero a outras dimensões sociais como: questões étnico-raciais, etárias, de classe e de sexualidade. Além de construir, de forma coletiva, reflexões e caminhos possíveis para uma sociedade mais justa e igualitária.
Uma das necessidades identificadas para a implementação do projeto, vinha principalmente, de algumas discentes. Elas careciam de um espaço para debater questões de gênero, feminismos, assédios, empoderamento feminino, dentre outros temas. “Talvez pela percepção de que nem sempre há tempo para trabalhar esses conteúdos com qualidade em sala de aula e que esses debates extrapolam o currículo previsto de uma única disciplina específica, como a Sociologia, por exemplo. Por isso a necessidade de reunir discentes e docentes interessadas em dialogar, trocar experiências, e leituras sobre feminismos”, afirmou a professora Beatrice, uma das coordenadoras do projeto.
Sobre o funcionamento e as atividades
Nos últimos anos, pós retorno às atividades presenciais da escola, o Coletivo Feminista tem se reunido semanalmente no CTUR para dialogar e organizar atividades para a comunidade escolar, como rodas de conversa, palestras, leituras coletivas, exibição e debates sobre filmes e músicas, exposições, intervenções, dentre outras.
O Coletivo utiliza diferentes estratégias para incentivar a participação ativa dos estudantes, e compreender quais demandas podem ser mais necessárias do ponto de vista discente. Em alguns anos, já foram aplicados questionários (Google Forms), além de reuniões semanais com bolsistas e voluntárias, que representam diferentes turmas e séries do colégio. “Um tema que é sempre recorrente como ponto de interesse para as estudantes é o assédio (moral e sexual), além de outros, como: pressão estética, história do feminismo no Brasil e no mundo, relacionamentos tóxicos”, explica a professora Beatrice. Ela ainda destaca que, recentemente, um tema muito debatido tem sido sobre masculinidades, misoginia e violência de gênero nas escolas e em ambientes virtuais.
Sobre formação estudantil
Para falar sobre o impacto do projeto na formação crítica dos estudantes, a docente Beatrice relembrou as atividades realizadas durante a XIV Semana Acadêmica do CTUR em 2025, em especial, a oficina “Fora do anonimato, o que você deseja? – um debate sobre os impactos da violência virtual no cotidiano escolar”. Segundo ela, ao serem perguntados sobre qual teria sido o ponto mais importante do debate, os alunos deram relatos marcantes. Alguns discentes disseram: “trazer os assuntos à nossa realidade, fazer com que a gente se importe com eles por meio da identificação”; “a troca de saberes, o que nos trouxe a olhar e entender a vulnerabilidade e diferenças entre o sentir das pessoas”; “dissecação do masculinismo e suas causas”; “o entendimento do condicionamento da mídia e das redes sociais para a violência de gênero e a crítica ao patriarcado”.

Oficina “Fora do anonimato, o que você deseja? – um debate sobre os impactos da violência virtual no cotidiano escolar” na XIV Semana Acadêmica do CTUR (2025).
Sobre saúde mental e violência de gênero
Alguns dos tópicos abordados pelo Coletivo, são o da saúde mental e violência de gênero. Na visão da coordenação do projeto, é um tema que precisa ser mais trabalhado dentro da comunidade acadêmica do CTUR. “Esse é um debate que precisa avançar dentro da instituição, não apenas através das atividades do Coletivo Feminista, mas com mais ações de pesquisa, extensão e gestão”, ressaltou a professora Beatrice.
Em 2019, o Coletivo promoveu uma palestra sobre relacionamentos abusivos, que contou com a participação de mais de 90 estudantes. A convidada foi a professora e psicóloga Rosana Pinheiro Botelho. Em 2025, foram promovidas algumas leituras e debates sobre os efeitos das masculinidades em sociedade.
Durante as Semanas Acadêmicas dos anos de 2018 (antes da organização oficial do projeto) e 2023, foram ofertadas pelo Coletivo Feminista, oficinas sobre violência de gênero. Nessas oficinas, foi utilizado como recurso didático o jogo “Violetas: cinema e ação no enfrentamento da violência contra a mulher”.

Oficina do Jogo “Violetas: Cinema & Ação no combate à violência contra a mulher” na XII Semana Acadêmica do CTUR (2023).
Sobre impacto e recepção
Do ponto de vista do Coletivo, existe a necessidade de ampliar ainda mais a recepção do coletivo por parte de toda a comunidade escolar:
A recepção do coletivo nos parece reflexo do próprio movimento que o originou. Explicamos: se o projeto surgiu a partir da iniciativa de algumas discentes em criar um espaço de debate urgente sobre essas temáticas, ainda são nossas estudantes de Ensino Médio, adolescentes mais afetadas pelos assédios cometidos por diversas formas, que sustentam maior interesse e maior dedicação a esse espaço. Inclusive, em 2025, boa parte das nossas discussões envolveu justamente o desafio bem como a necessidade de ampliar a recepção do coletivo por parte de toda a comunidade escolar, revelou a Professora Karine Bastos.

Roda de conversa entre alunas(os) e ex-alunas do Coletivo Feminista CTUR (2022).
O Coletivo Feminista considera como sua principal conquista a continuidade do projeto ao longo dos últimos anos. As integrantes destacam a trajetória construída de forma consistente e colaborativa desde sua criação. “Acumulamos uma trajetória bonita de atividades que se constroem ano após ano, de forma coletiva e sempre atenta às pautas que emergem do nosso convívio social”, afirmou a professora Karine Bastos, também coordenadora do Coletivo.
A docente também agradeceu pelo espaço de divulgação e ressaltou a importância do diálogo com a comunidade escolar: “Agradecemos, inclusive, pela iniciativa desta entrevista ao nosso coletivo, porque, em certa medida, ela nos sugere um maior interesse da comunidade escolar pelas discussões sobre gênero, que se mostram, a cada dia, mais urgentes e necessárias.”
Sobre desafios enfrentados
Para o Coletivo, os principais desafios ainda estão relacionados à compreensão equivocada sobre a proposta do projeto. Muitas vezes, ele é interpretado como um espaço exclusivamente “feminino”, restrito à participação de meninas e mulheres, ou como um ambiente de discussão que não dialoga com pessoas do gênero masculino.
A docente Karine esclarece que essa percepção não corresponde à essência do grupo: “O coletivo é ‘feminista’ porque nosso mote é justamente a luta pela igualdade de gênero. Por isso, é fundamental que o debate se amplie o máximo possível.”
Segundo ela, a proposta é promover reflexões que envolvam toda a comunidade escolar, fortalecendo o diálogo e a construção coletiva de uma cultura mais igualitária.
Quais são os próximos passos planejados para o Coletivo Feminista?
Para os próximos passos, o Coletivo Feminista do CTUR pretende fortalecer ainda mais seu caráter formativo dentro da instituição. Segundo as docentes Beatrice e Karine, o grupo tem amadurecido a compreensão de que o coletivo é, apesar de tudo, um espaço de formação contínua. “Temos cada vez mais amadurecido a ideia de que o Coletivo Feminista, acima de tudo, é um espaço formativo. Se compreendemos que formação é um processo, e um processo suscetível à transformação não apenas individual, mas coletiva. Precisamos confiar e trabalhar no nosso cotidiano para as mudanças que sonhamos juntas e juntos em todo o tecido social”, destacam as professoras.
De acordo com a docente Karine, essa transformação passa pelo ambiente escolar, na sala de aula, no cotidiano da escola e até mesmo no trajeto casa-escola, mas também se amplia para a sociedade como um todo. Especialmente, no que diz respeito à garantia da igualdade de direitos para as mulheres. Entre as pautas defendidas estão o direito de ir e vir com segurança, a ocupação de espaços na política, na ciência e em posições de poder.
Outro ponto central é a discussão sobre o trabalho de cuidado. Para o coletivo, é fundamental que essa pauta seja cada vez mais compartilhada por todas as pessoas, já que, historicamente, permanece concentrada nas mãos de meninas e mulheres, muitas vezes de forma invisibilizada, desvalorizada e não remunerada.
De maneira mais objetiva, os próximos passos envolvem a realização de ações ainda mais integradas ao processo formativo da juventude estudante de uma escola pública brasileira. A proposta é que o coletivo não seja um espaço isolado ou restrito a encontros extracurriculares. “Não queremos ser um ‘coletivo à parte’, apenas uma roda de debate em horário extracurricular. Precisamos estar integradas e integrados ao projeto formativo da escola”, afirma Karine.
As docentes coordenadoras do projeto também ressaltam a importância de aprofundar o debate sobre interseccionalidade, conceito que analisa a interseção entre diferentes sistemas de opressão. Assim, as discussões sobre machismo e misoginia devem dialogar também com temas como racismo estrutural, sexismo, homofobia e desigualdades de classe. “Para além de um compromisso institucional, entendemos que esse é um exercício diário de desconstrução de preconceitos. Estamos, afinal, todas e todos em formação permanente”, concluíram.

Reunião e confraternização no lago do CTUR (2025).