Roda de conversa com a temática “escrevivência” emociona turma 24

Por Luan Cezário.

Na manhã desta terça-feira (17), a turma 24 de Agroecologia participou de uma atividade com a temática “Escrevivência”, conduzida pela professora de Literatura/Língua Portuguesa Karine Bastos, com parceria das bolsistas do PIBID de Licenciatura em Educação do Campo. A iniciativa integra a campanha “21 Dias de Ativismo Contra o Racismo” e teve continuidade nesta quarta-feira (18), com novas atividades sobre o Racismo Alimentar, também conduzido pela equipe do PIBID.

“Hoje foi a culminância dessa atividade que eu acho que foi lindamente construída, porque foi coletiva”, definiu a professora. Foto: Luan Cezário/CTUR

Sobre a campanha

A Décima Edição Comemorativa da Campanha dos 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo ocorre de 1º a 21 de março de 2026. Esta edição celebra uma década de luta contínua e coletiva, refletindo o legado histórico do Movimento Negro no combate às desigualdades e na construção de modelos de sociedade livres do racismo.

A docente Karine Bastos diz que trabalhou este tema correlacionado às mulheridades, por estarmos no mês de março, mês do Dia Internacional da Mulher. O trabalho foi resultado de uma parceria entre as disciplinas de Literatura, Língua Portuguesa, Filosofia e História, com o apoio das docentes Sandra Regina e Ludmila Gama. “Fizemos a inscrição no início, já começamos a conversar com a professora Sandra, de Filosofia, com a professora Ludmila, de História.  Elas começaram a trazer essa temática da escrevivência para as suas aulas.  A gente queria participar de algum modo da campanha contra o racismo. E aí pensando em março, a gente também queria estar próximo da campanha da mulheridade, da Rural, então a gente pensou nessa interseccionalidade, luta contra o racismo, o machismo, patriarcado, e os nomes dessas mulheres foram surgindo”, explicou Karine.

O que é escrevivência?

O conceito de escrevivência foi idealizado pela escritora Conceição Evaristo, unindo as palavras “escrita” e “vivência”. Refere-se a uma forma de produção textual que nasce das experiências reais, especialmente das vivências de mulheres negras, transformando memória, cotidiano e resistência em narrativa literária. A atividade proposta pela docente e pela equipe do PIBID consistiu em uma roda de conversa, na qual os estudantes puderam compartilhar suas próprias escrevivências, em um ambiente mais intimista.

Karine explica que o tema já vinha sendo trabalhado em sala de aula, a partir de autoras como Carolina Maria de Jesus e a própria Conceição Evaristo. Segundo a professora, durante as atividades, os estudantes produziram relatos marcantes sobre suas vivências e sobre mulheres que os inspiram. “Na última aula, eles fizeram escritas lindas. Lendo Carolina, na semana passada, muitos mencionaram que lembraram da mãe, da avó, da tia, pela força dessa mulher que luta diariamente para alimentar seus filhos. Eu achei muito bonita a relação que eles trouxeram”, relatou.

Relatos emocionantes

Durante a roda de conversa, os participantes continuaram a emocionar ao compartilhar histórias de superação e resistência. Abrindo o debate, a pibidiana Conceição Aparecida apresentou mulheres importantes em sua trajetória, como sua mãe, Cândida Pedro da Silva, e sua tia, Dalva Ferreira Martins. Aos 63 anos e atualmente no quarto período de Licenciatura em Educação do Campo, Conceição destacou a força dessas referências: “Minha mãe era rezadeira. Ela foi homenageada na Rural de Nova Iguaçu pela luta em ajudar outras mulheres. Minha tia criou um movimento de mulheres e um grupo jovem, incentivando-os a estudar e a construir uma perspectiva de vida. Ela sempre dizia: ‘Você pode ser quem você quiser’. Se hoje estou na universidade, é por causa dessas duas, que sempre me deram muita força”, revelou.

Conceição também ressaltou que, por muito tempo, acreditou ter ultrapassado a idade para estudar, mas não desistiu do sonho. Hoje, inspira outras pessoas a persistirem: “Eu achava que a universidade estava muito distante, por já ter passado dos 60 anos. Mas nunca desisti. Se você tem um sonho, lute por ele. Você é capaz de conseguir”, afirmou.

Eu enxergo uma coisa muito legal, porque as pessoas hoje falam assim: ‘você é a minha inspiração’. A minha filha fala, mãe, em todos os lugares que eu estou, eu falo de você, porque você é a minha Carolina”, revelou Conceição. Foto: Luan Cezário/CTUR

O estudante Murilo Henrique Sampaio compartilhou, com emoção, a história de sua mãe — uma mulher que estudou até a quinta série, mãe solo e exemplo de resistência. “Minha mãe batalhou muito, ela só estudou até o quinto ano. Ela sempre lutou para botar comida na nossa mesa. Minha mãe foi o meu exemplo”, relatou.

Murilo destacou sua gratidão e o desejo de orgulhá-la: “Eu me sinto orgulhoso de quem eu sou hoje e de onde estou estudando, porque ela teve uma grande participação na minha vida. Sempre me incentivou a estudar. Eu queria dar orgulho para ela. Para mim, ela é a minha Carolina”, contou.

Em meio aos relatos, ficou evidente como as histórias se entrelaçam. Elaine Pereira, bolsista do PIBID, se identificou com a vivência de Murilo e relembrou a trajetória de sua mãe e de sua avó. “É como se a gente se unisse em vários pontos, mesmo sem se conhecer. Me tocou muito ele contando a história da mãe dele. Era como a história da minha mãe, da minha avó”, pontuou.

Elaine relatou que sua avó começou a trabalhar como cozinheira aos sete anos de idade: “Uma criança de 7 anos, ela contava em vida que ela não tinha altura para mexer nas panelas. Então, a patroa colocava um caixote e ela subia para conseguir fazer as comidas.” Mesmo após sofrer dois AVCs, continuou trabalhando enquanto pôde. “Teve dois AVCs dentro da casa dessas pessoas. Um deles ela não morreu porque a patroa era médica e chegou a tempo de salvá-la e levar para o hospital. Assim, ela só parou de trabalhar mesmo quando não dava mais. Minha vó trabalhou a vida toda desde os 7 anos de idade como empregada doméstica e no final da vida dela ela não teve valor nenhum”,

Elaine Pereira conta a história de sua família. Foto: Luan Cezário/CTUR

Outro tema recorrente foi a quebra de ciclos. Elaine também compartilhou as dificuldades enfrentadas por sua mãe, que precisou interromper os estudos ainda na infância para cuidar dos irmãos e enfrentou relações marcadas por violência. “Minha mãe estudava a luz de vela, porque ele desligava as luzes da casa para ela não ler. Ela pegava e acendia a vela, ‘pois eu vou ler, eu vou estudar’. Essa determinação, essa garra foi que me contagiou, por sempre querer mais. E ela até conseguiu terminar o Ensino Médio”, contou.

A bolsista destacou a importância de quebrar ciclos e continuar persistindo: “Porque a minha mãe conseguiu chegar, conseguiu romper essa barreira das violências e das imposições do meu pai até certo ponto. Ela se formou, mas não teve força para ir além. Para entrar no mercado de trabalho. Então, ela sempre dizia: ‘Eu parei, mas vocês vão conseguir’.”

Estudante Luiza Crevelari se emociona com o relato de Murilo. Foto: Luan Cezário/CTUR

O estudante Samuel Leonardo Oliveira também abordou a questão do encerramento de ciclos ao narrar a história de sua mãe, uma mulher paraense que deixou sua terra natal em busca de novas oportunidades. Casou-se aos 15 anos e teve o sonho de se formar em Agroecologia na UFRRJ, interrompido pelas dificuldades de sustentar a família. “A gente morava no alojamento da Rural, numa cabeceira. Eu, minha mãe, meu irmão, minha avó e minha irmã. Os cinco numa cabeceira. Minha mãe sempre estudou muito, sempre foi uma mulher muito estudada. Faltou o último período de Agroecologia, que era o sonho dela, só que não estava encaixando para poder manter a gente. Minha mãe estudava, trabalhava, vendia caldo nas festas de madrugada, virava à noite trabalhando”, revelou Samuel Leonardo.

Apesar dos desafios, ela não desistiu dos estudos e concluiu a graduação em Belas Artes na UFRRJ no ano passado.

O estudante destacou a importância de reconhecer essas trajetórias: “Mas o importante é que para você estar aqui nesse momento sentado dentro de uma roda conversando, muita pessoa já sofreu. Temos que reconhecer isso, essa luta. Porque você já foi criança, você comeu, te davam banho, então teve aquele cuidado. Precisamos reconhecer as nossas Carolinas, e, neste momento, reconheço a minha”, destacou. Encerrando a atividade, a estudante Luiza Crevelari expressou seu sentimento de gratidão pela experiência: “Acho que todas as mulheres são sinônimo de força, independentemente de suas histórias. Essas aulas despertaram isso em mim. A escrita não é só técnica ou conhecimento, ela também nos ajuda a expressar e aliviar o que sentimos. Obrigada por esse momento de troca.”


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